Inverno pouco rigoroso em 2026 provoca a redução da produção do morangueiro: por trás da interação da planta com o frio.
Produtores têm notado a diminuição da produção de morango nos últimos meses, motivada principalmente pela ausência de frio no inverno deste ano, o qual teve temperaturas acima da média para o período. Entenda como funcionam os estímulos do fotoperíodo e temperatura sobre variedades de dia neutro.
A quantidade de frutos produzidos ao longo dos meses e anos é influenciada por diferentes fatores. Parte deles pode ser adequada e modificada pelo manejo adotado na cultura, a exemplo da nutrição, irrigação e controle de pragas e doenças, ao passo que os elementos do clima já não podem ser alterados diretamente, embora o cultivo protegido seja adotado para mitigar alguns deles. Proteção contra a chuva, ventos fortes e a manutenção da temperatura interna quando está muito frio, são os principais benefícios proporcionados pela estufa, que minimiza os efeitos negativos ocasionados por esses fenômenos.
Entre os fenômenos climáticos, a temperatura está diretamente relacionada com a produção de morangos, sendo o elemento de maior influência na interação com o fotoperíodo e a variedade cultivada. Durante o inverno deste ano, as temperaturas registradas não foram tão baixas se comparadas com o mesmo período do ano anterior de acordo com as informações a seguir.
2025 x 2026: contexto do clima no Paraná e nos Campos Gerais
O Simepar - Sistema de Tecnologia e Monitoramento Ambiental do Paraná - informa que no inverno de 2025 as temperaturas ficaram dentro ou abaixo da média em todas as regiões do Estado. O dia mais frio do ano foi em 25 de junho, sendo registrado -2,3° C em Ponta Grossa. Foi um ano típico, com um inverno rigoroso e seco, dentro da normalidade esperada. Destaque também para Curitiba, que teve 83 horas de frio abaixo de 10° C em julho. Foram registradas várias entradas de massas de ar polar logo a partir do outono, ocasionando geadas distribuídas por todo o Paraná, inclusive em locais em que não eram registrados frios intensos há anos, totalizando 28 alertas de geada de maio até agosto.
Esse cenário foi bastante positivo para a produção de morango, tendo em vista a exigência por horas de frio pelas plantas para que sejam emitidas as flores e frutos. Como consequência, houve um aumento considerável em relação aos três anos anteriores, que tiveram invernos quentes com temperaturas acima das médias históricas.
Já o inverno de 2026 foi novamente atípico: excesso de chuvas e temperaturas elevadas, conforme já previsto pelo Simepar. Em decorrência do El Niño, os volumes de chuva têm sido elevados, ocasionados pelo avanço frequente de frentes frias pelo Paraná, sendo acompanhados de temperaturas acima da média para o esperado no período. Mesmo sob algumas massas de ar polar, Ponta Grossa não registrou temperatura negativa no mês de junho, sendo a mais baixa apenas 1° C no dia 25. Em julho, as temperaturas mínimas permaneceram próximo a 10° C ao longo do mês e agosto foi marcado pela elevação das mínimas, com máximas chegando a 30° C.
Essas condições explicam o porquê da alta produção de morango em 2025, seguida pela queda em 2026 no Paraná. Além do predomínio de chuvas, as temperaturas no inverno não foram suficientes para estimular uma emissão de florada expressiva nas plantas no momento atual. Ou seja, há redução da oferta do fruto no mercado!
Mas na prática, como funciona o mecanismo fisiológico do morangueiro em relação ao frio?
Atualmente a espécie cultivada é Fragaria x ananassa, um híbrido que foi obtido a partir do cruzamento entre duas espécies Fragaria chiloensis Mill. e Fragaria virginiana Duch, em 1750 na França. As primeiras espécies silvestres de morangueiro são datadas em mais de dois mil anos, demonstrando que é uma cultura que passou por diferentes épocas climáticas. Por isso que, naturalmente, ela teve que se adaptar a condições extremas, principalmente de baixas temperaturas. Essas adaptações ao longo de vários anos culminaram nas características que as plantas possuem hoje em dia, como a interação entre as horas de frio e o comprimento do dia.
Basicamente, a temperatura funciona como um gatilho externo para que a planta de morango "entenda" que precisa emitir flores. Como já explicado em outro artigo, o morangueiro é dividido em variedades de dia curto ou de dia neutro, sendo a primeira dependente do acúmulo de frio e da redução de horas de luz/dia para florescer, enquanto que a segunda precisa principalmente do estímulo das baixas temperaturas, com menor influência do fotoperíodo. Para compreender essa dinâmica, podemos aprofundar o assunto.
Abordando em um nível bioquímico e molecular, todas as células vegetais têm DNA em sua composição, o qual é formado por milhares de segmentos unidos, os genes. Estes, são responsáveis por comandar tudo o que acontece na planta de maneira organizada e precisa, como crescimento e desenvolvimento celular, fotossíntese e processos bioquímicos. Eles são ativados por diferentes maneiras, e uma delas, é pela variação da temperatura.
Quando a temperatura permanece baixa por um período de horas/dia (abaixo de 15° ou 10° C), esse acúmulo promove a ativação dos genes responsáveis pela indução floral no morangueiro, os quais "avisam" a planta que ela pode realizar esse processo chamado diferenciação celular, aonde as gemas da coroa formam as flores (Figura 1). Na situação contrária, quando as temperaturas estão acima de 15°C, os genes de inibição da floração são ativados e a planta continua a vegetar.

Quantas horas de frio as plantas precisam para iniciar a indução floral?
A quantidade de horas de frio para indução floral em variedades de dia neutro é variável em função da variedade do morangueiro e também das temperaturas máximas ao longo dos dias. A interação entre o genótipo e o ambiente interfere de forma direta nesse aspecto, pois cada um possui características genéticas distintas.
A partir de trabalhos científicos com diferentes variedades (Figura 2), podemos estipular valores médios para horas de frio e temperatura. A faixa entre 9° e 15°C é a mais adequada à indução do florescimento no morangueiro. A partir de dez dias sob essa condição, o processo de ativação dos genes é efetivado e a indução acontece plenamente, podendo levar mais dias a depender da variedade.
Nos casos em que a temperatura durante o dia chegue até 20° a 25°C, mas na madrugada permaneça abaixo de 9° (comum no outono), há uma compensação, fazendo com que a indução seja mantida. Por isso que é desejável uma redução das temperaturas logo no outono, pois a planta já introduz esse processo até que chegue o inverno. Na prática, se o inverno for rigoroso, o acúmulo de horas de frio será adequado para uma plena produção do fruto.

Por que a planta emite flores durante o ano todo?
Vale destacar que a emissão de flores não acontece de uma vez só. A planta acumula as horas de frio com o passar do tempo e, da mesma maneira, a floração vai acontecendo gradativamente ao longo das semanas e meses. Por conta disso, quanto mais tempo o morangueiro é exposto a baixas temperaturas, maior será a quantidade de flores emitidas ao longo do tempo. É um processo bastante dinâmico e que é influenciado por outros fatores, como o manejo nutricional por exemplo.

Sob baixas temperaturas, o metabolismo da planta é reduzido, fazendo com que o crescimento vegetativo também seja desacelerado, ao passo que a indução floral está a todo vapor. Por isso que o aumento da temperatura também é necessário para balancear todos os processos (emissão de folhas e maturação de frutos), embora temperaturas acima de 28° C restrinjam drasticamente indução floral do morangueiro. Neste caso, a produção no verão reduz, pois o acúmulo de baixas temperaturas leva mais tempo para acontecer, geralmente obtidas em condições amenas nas madrugadas.
Conclui-se que todo esse mecanismo acontece pelo processo evolutivo da espécie e também é alterado pelo melhoramento genético. A temperatura é um fator chave para a indução floral das variedades de morangueiro de dia neutro e que o acúmulo de horas de frio acontece continuamente ao longo do ano. O outono e inverno são as estações que permitem o maior acúmulo de frio para as plantas, que irá refletir na produção ao longo das outras estações aonde as temperaturas permanecem elevadas por mais tempo, com menos horas de frio. Por isso que invernos mais quentes acarretam em redução de produção de morango.




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