Qual a diferença entre variedades de morango de dia curto e dia neutro?
Fotoperíodo, temperatura e genótipo condicionam o desenvolvimento do morangueiro ao longo do ano.
A fim de compreender este assunto, torna-se importante abordar aspectos morfológicos da planta, separando em duas partes: vegetativa e reprodutiva. A partir disso, é possível estabelecer uma relação e compreender como funciona a dinâmica de plantas de dia curto e de dia neutro.
O morangueiro (Fragaria x ananassa) é uma planta herbácea e perene, ou seja, seus ciclos produtivos perduram por vários anos, embora comercialmente em sistema semi-hidropônico seja utilizada por até quatro anos. A planta possui uma estrutura central chamada coroa, onde estão inseridas as folhas e gemas. Estas, podem permanecer dormentes ou dar origem a novas coroas e estolões, bem como se diferenciar em inflorescências, que darão origem às flores e frutos. Todo esse processo de formação de folhas, estolões e inflorescências é afetado pelos estímulos aos quais as plantas são submetidas, como nutrição, temperatura e fotoperíodo. As respostas variam conforme a sensibilidade de cada variedade.

O fotoperíodo está relacionado ao comprimento do dia, ou seja, o número de horas de luz do Sol, que varia durante o ano. No verão os dias são mais longos e as temperaturas aumentam, ao passo que no inverno os dias são mais curtos e a temperatura diminui. Isso interfere diretamente na fisiologia das plantas de morangueiro, as quais respondem a esses estímulos de diferentes maneiras e são classificadas de duas formas: plantas de dia curto e plantas de dia neutro.
Plantas de dia curto
São influenciadas pelo fotoperíodo e pela temperatura, que condicionam o crescimento vegetativo e o florescimento. Na época do ano em que os dias começam a ficar mais curtos, no outono e no inverno, ocorre a indução do florescimento nas plantas. Isso reflete em uma produção sazonal, não sendo homogênea ao longo do ano, pois nos meses mais quentes e com dias longos, as plantas são estimuladas a vegetar, emitindo folhas e estolões.
O fotoperíodo crítico, número de horas/luz por dia para indução floral, é bastante variável conforme a variedade, sendo na maioria das vezes inferior a 14 horas de luz. Geralmente são necessários 7 a 14 ciclos de dias curtos para induzir a formação de flores em condições favoráveis. Entretanto, essa quantidade pode variar de acordo com a variedade, temperatura e duração do dia.
Outro fator é a temperatura, que para alguns genótipos de dia curto, exerce maior influência sobre o processo de indução do que o comprimento do dia, sendo estimulado em temperaturas até 18°C. Na prática, ocorre uma interação entre esses dois fatores, que resulta em acúmulos de horas de escuro e horas de frio, condicionando a fisiologia do morangueiro. Sabe-se que, quanto maior o tempo de exposição da planta a baixas temperaturas, menor pode ser o número de ciclos necessários para estimular a formação de flores.

Dessa maneira, a interação genótipo x fotoperíodo x temperatura determina as regiões de cultivo das variedades de dia curto a depender da latitude. Nas épocas do ano em que o comprimento do dia e a temperatura aumentam, a emissão de inflorescências é suprimida e, a depender da cultivar, cessada totalmente.
Como exemplos de variedades de dia curto, podemos citar Camarosa, Camino Real e Fronteras.
Plantas de dia neutro
O processo de florescimento ocorre independentemente do comprimento do dia, embora também seja estimulado pelas baixas temperaturas quando se inicia o outono, até o inverno. A diferença é que, durante a primavera e o verão, as plantas continuam emitindo flores e a produção acontece durante o ano todo.
Assim como as variedades de dia curto, elas também necessitam de baixas temperaturas para que ocorra o estímulo da emissão de inflorescências, pois é uma condição inerente à genética do morangueiro. Contudo, a diferença está no fato de que as variedades de dia neutro continuam o processo de florescimento durante a primavera e o verão, pois não há dependência de dias curtos para que ele aconteça. Ou seja, a planta produz frutos durante o o ano todo.

Vale destacar que a produção não é homogênea nos doze meses, havendo variação com altos e baixos, pois sob as altas temperaturas do verão há um decréscimo natural do florescimento e a planta tende a emitir mais folhas assim como as variedades de dia curto, porém em uma quantidade menor, tendo em vista a emissão de inflorescências.
Essa característica possibilitou a expansão e consolidação do cultivo de variedades de dia neutro em diversas regiões do Brasil e do mundo, pois traz mais segurança ao produtor que depende exclusivamente da cultura como fonte de renda.
Como exemplos de variedades de dia neutro, temos: San Andreas, Albion e Portola.
Outros fatores que afetam a emissão de flores e estolões no morangueiro
Além do genótipo, fotoperíodo e temperatura, o balanço nutricional e a disponibilidade de água podem ter efeitos diretos na indução floral da planta. Por exemplo, é comum em condições de estresse a planta naturalmente emitir flores como estratégia de sobrevivência, ainda que não seja algo desejado. Por isso que suprir as demandas hídricas e nutricionais é a base para um desenvolvimento adequado da cultura.
A quantidade de cada nutriente a ser fornecido para a planta é variável por diversos fatores, mas fato é que deve-se manter um equilíbrio entre parte vegetativa x parte reprodutiva, pois dependendo do balanço nutricional, a emissão de flores pode ser inibida, mesmo que a planta seja estimulada pelas baixas temperaturas e dias curtos.
Abordando o aspecto vegetativo, a emissão de estolões no morangueiro é diretamente influenciada pelas condições de temperatura. Quando ela sobe na primavera/verão, há o estímulo para que as plantas formem essa estrutura vegetativa, sendo que as variedades de dia curto expressam mais essa característica em comparação com as de dia neutro. Nesse caso, ajustar a quantidade de nutrientes, especialmente o Nitrogênio, é peça fundamental para que a planta continue emitindo flores.
Então, qual variedade escolher?
É importante salientar que ambos os grupos de variedades têm suas características e que não podemos afirmar que um seja melhor que o outro, haja visto a dimensão de fatores a serem analisados, como sistema de cultivo, mercado, sabor do fruto, região de cultivo, clima, entre outros. Saber se a variedade é de dia curto ou dia neutro é o ponto de partida para decidir, pois o manejo pode variar conforme cada uma.

Caso o produtor opte por uma variedade de dia curto, é necessário verificar se ela é adequada para a região, pois cada uma demanda de um número de horas de luz específico. Se a variedade necessitar de onze horas de frio e o máximo da região são nove a dez horas, a emissão de inflorescências será reduzida e a planta irá vegetar por mais tempo, por exemplo.
É uma boa opção para mercados sazonais, pois o produtor terá opção de fornecer morangos fora de época e em boa quantidade, com possibilidade de obter um preço melhor na comercialização. Agora quando o objetivo é ter uma produção durante todo o ano e a demanda for contínua, optar por uma variedade de dia neutro torna-se a melhor escolha. Por isso que conhecer o mercado é outro ponto importante nessa decisão.
Por fim, destaca-se que aspectos como tamanho, peso, sabor e outros atributos qualitativos não são determinados pelo fato da variedade ser de dia curto ou neutro, mas sim, condicionados conforme as características genéticas (genótipo) de cada variedade, somado ao manejo da cultura.
Na Universidade do Morango, estamos cultivando as variedades de dia neutro Portola, Albion, San Andreas, Alturas e Fiona, a fim de obter resultados sobre o desempenho de cada uma, determinando as respectivas características qualitativas e quantitativas. Fique de olho em nosso site que logo mais teremos os primeiros resultados!




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