El Niño: o que é e como afeta o morangueiro em cultivo protegido.
Sistemas meteorológicos estão demonstrando a evolução deste fenômeno climático ao longo dos últimos seis meses, que promete ser o mais intenso já registrado em todo o período de estudo, ao longo de 170 anos.
Não é de hoje que são notados os extremos climáticos: chuva em excesso, temperaturas elevadas e ventos, todos acontecendo de forma acentuada e recorrente, o que tem causado preocupação no setor agrícola. Mas afinal, o que é o El Niño?
É um fenômeno que acontece no Oceano Pacífico, mais precisamente no Pacífico Norte. Todos os anos ocorre o aquecimento e resfriamento das águas dos oceanos de todo o mundo, em um processo natural do planeta. Contudo, em alguns anos esse processo pode acontecer de forma acentuada por diversos motivos, que são englobados pelo processo de aquecimento global. No caso do El Niño, de dois a sete anos é observado um aquecimento anormal das águas do Pacífico Norte, ocasionando consequências que podem durar até doze meses em diferentes regiões do mundo (Figura 1).

Figura 1: Representação do aquecimento das águas do Pacífico Norte.
No Brasil, tipicamente a região Sul é acometida por chuvas volumosas, ao passo que na região Norte e Nordeste a seca se intensifica. As previsões estão mantendo Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul em alerta, sendo concretizadas ao longo das semanas: acumulados de chuva acima de 100 milímetros em poucos dias, granizo, temporais com ventos intensos e até mesmo tornados, já registrado em Piraí do Sul e na região sudoeste do Paraná.
Tudo isso gera preocupação aos produtores rurais, em especial o setor hortifruti com culturas altamente perecíveis ao excesso de chuva. Incidência elevada de doenças, encharcamento do solo e atraso nos tratos culturais geram prejuízos direto ao produtor.
Cultivo protegido: danos estruturais na estufa
Quando se trata de cultivo protegido, a situação também exige atenção: a estrutura de uma estufa (seja ela de aço ou madeira) é onerosa e está sujeita a sofrer danos por granizo e/ou temporais com rajadas de vento. Mesmo com previsões, muitas vezes o produtor é pego de surpresa e pode sair no prejuízo com plásticos danificados e estrutura comprometida.
A melhor maneira de evitar esses danos é através de quebra-ventos (Figura 2), que devem ser posicionados corretamente ao redor da estufa a fim de diminuir a velocidade e, consequentemente, o impacto do vento que atinge a mesma.

Figura 2: Quebra-vento feito com bambu ao lado da estufa.
O morango leva mais tempo para madurar
Quanto ao morangueiro semi-hidropônico, além dos possíveis danos estruturais, as plantas também podem ser afetadas indiretamente pelas condições climáticas decorrentes do El Niño, mesmo que a estufa proteja contra a chuva. Com dias seguidos de precipitação, a intensidade luminosa é reduzida drasticamente devido ao predomínio de céu nublado, interferindo diretamente na fotossíntese realizada pela planta. Neste caso, o metabolismo torna-se mais lento, bem como o desenvolvimento vegetal, que na prática é observado pelo maior tempo de maturação dos frutos (Figura 3) e o sabor abaixo do esperado.

Figura 3: Fruto de morango com processo de maturação influenciado pela ausência de luz, caracterizado pela coloração branca.
Isso acontece porque a maturação é um processo que depende de incidência luminosa. Se a fotossíntese reduz, os açúcares sintetizados diminuem da mesma forma tornando o fruto menos saboroso. Somado a isso, a luz solar está envolvida no processo de degradação da clorofila (fruto imaturo é verde): sem luz o suficiente, o fruto leva mais tempo para atingir a maturação adequada. É muito comum encontrar morangos com aspecto rosado em períodos nublados. As consequências afetam os atributos qualitativos do morango, muitas vezes dificultando sua comercialização.
Aumento da incidência de podridões nos frutos
Devido às chuvas frequentes, a umidade do ar mantém-se elevada por várias horas durante o dia, inclusive no interior da estufa. Como as temperaturas em seu interior tendem a ser elevadas em relação ao ambiente externo, essa combinação é ideal para que ocorra a infecção dos frutos por fungos dos gêneros Bortrytis e Colletotrichum (Antracnose). Ambos ocasionam podridão do morango enquanto ele avança seu estádio de maturação, podendo afetar o fruto ainda imaturo no caso da Antracnose.
Dessa forma, nos períodos em que a chuva der uma trégua, manter as cortinas laterais da estufa elevadas é uma maneira de melhorar a circulação de ar em seu interior. Outro manejo importante é manter as plantas limpas, retirando o excesso de folhas e frutos velhos que por ventura ficam escondidos no interior da planta. Agir de maneira preventiva é a melhor forma de evitar a perda de frutos por podridão em períodos chuvosos, podendo também realizar pulverizações com produtos adequados.
Perspectivas
Devido aos acontecimentos recentes, as previsões têm se concretizado e o alerta sobre o El Niño é real. Os impactos em cultivo protegido são conhecidos e possíveis de ser evitados ou amenizados. Os modelos meteorológicos nacionais e internacionais estão mostrando que ele será o mais intenso já registrado, além de estimar que seus efeitos climáticos serão sentidos até 2027.
Estudos indicam que esses fenômenos estão se tornando cada vez mais recorrentes ao longo dos anos, com extremos de temperatura, chuva e seca no mundo todo. Sabe-se que as consequências podem ser graves, motivo pelo qual todos devemos estar preparados e agir de forma preventiva, seja em cultivo protegido ou em ambiente externo.




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