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Uma experiência, um conceito e um propósito.

  • Foto do escritor: Danilo Ribeiro
    Danilo Ribeiro
  • 5 de jul.
  • 5 min de leitura

Fertirrigação não é uma prática simples. Acredito que todos que já trabalharam com ela em algum momento da vida vai concordar. É minuciosa, é cara, é matemática. Traz resultados fantásticos, faz a gente subestimar as outras práticas com a mesma intensidade que nos faz se arrepender quando algo não sai como deveria. É uma ciência pouco exata, que insistimos para que a seja, e por ser assim, fascinante, se tornou o meu maior objeto de estudo dentro da agronomia nesses 12 anos de carreira.


Fui introduzido nesse meio ainda como estagiário em 2014. Estava trabalhando em um dos maiores viveiros especializados em tomates do mundo, na California, falando uma língua que não era a minha, lendo unidades de medidas que mal sabia que existiam para calcular fertilizantes que nunca vi no lado sul do mapa. Era quase que um expectador, dosando o que me era passado, aplicando como me orientavam e observando o que acontecia. Como se era esperado: cometi vários erros. Ainda bem!


Dosador de fertilizantes que utilizei em Watsonville-CA. É similar a um "Venturi", mas com opções de regulagem. Doze anos se passaram desde que tirei essa foto e eu nunca mais vi um desses.
Dosador de fertilizantes que utilizei em Watsonville-CA. É similar a um "Venturi", mas com opções de regulagem. Doze anos se passaram desde que tirei essa foto e eu nunca mais vi um desses.

Percebi que o sistema era sensível. Dosagem errada: problema! Aplicação equivocada: problema! Mistura inconsistente: tragédia! Aprendi solucionar todos os problemas que antes eu não tinha, mas que futuramente se multiplicariam. Anotei todos eles e voltei para cá. Quis o destino que logo meu primeiro desafio já profissional seria descobrir os efeitos de fertilizantes hidrossolúveis em culturas que eu não tinha nenhuma experiência, principalmente o morango. Ainda bem, de novo!


Minha bagagem pouco serviu, as culturas eram novidades, os sistemas eram outros as realidades eram diferentes. Fui apresentado a uma lógica de trabalho, uma maneira de calcular que eu não entendia o sentido, mas que de alguma maneira funcionava. Fui tentar entender o que estava por trás dessa lógica e percebi que tinha sido um placebo: as fórmulas estavam quase todas erradas, os meus cálculos não faziam sentido algum matematicamente, mas os resultados positivos eram reais. Que sorte!


Relação entre nutrientes. Se a matemática estava errada essa lógica estava certa! Por que ninguém se quer tocou nesse assunto nos 6 anos que passei na universidade? Uns três anos se passaram, e as demandas começaram a aumentar. Agora eu precisava estudar o que ninguém soube me ensinar, mas com certeza seria mais fácil levando em conta tudo o que eu já tinha vivenciado. Percebi que fora do Brasil a fertirrigação é um objeto de estudo já avançado. Agradeci por todos os mexicanos que me ensinaram que falar espanhol era mais importante (e mais legal) que falar inglês, e consegui fazer cursos online com profissionais de Almeria/ES e também do próprio México. Que surpresa, o assunto que ninguém fala por aqui está bem avançado por lá.


(Quase) Tudo começou a fazer sentido. A lógica estava certa. A planilha só precisava de correção simples. As aplicações poderiam ser "tupiniquimzadas". Meu trabalho estava se aperfeiçoando. Eu aprendi mais, me arrisquei mais, acertei mais. Meus resultados foram se espalhando, minha carreira foi ascendendo, e os desafios aumentando. Pela primeira vez me deparei com uma demanda que até então eu não tinha: ensinar essa minha lógica agora aperfeiçoada. Nesse momento já tinha gente falando que eu tinha perfil para professor, então... vamos por a prova.


O ano era 2020, ou 2021, a gente ainda usava máscaras. A demanda veio de um amigo que estava a uns 300km de mim, chamadas de vídeo era o nosso "novo normal", foi fácil de organizar. Um Power Point bonitinho, uns desenhos ao vivo no paint e a grande estrela da noite: a minha Nova Planilha de Cálculos de Fertirrigação. Com duas ou três chamadas encerramos o que talvez tenha sido o primeiro curso da que era apenas sonhada Universidade do Morango. Ps: pouco falamos sobre morangos.


A planilha que saiu após perceber a necessidade de se aperfeiçoar e levar em conta as diferentes lógicas de calcular os fertilizantes. Por mais que eu a tenha desenvolvido, a quantidade de pessoas que tem participação nela não caberiam nessa legenda.
A planilha que saiu após perceber a necessidade de se aperfeiçoar e levar em conta as diferentes lógicas de calcular os fertilizantes. Por mais que eu a tenha desenvolvido, a quantidade de pessoas que tem participação nela não caberiam nessa legenda.

Será que eu tinha sido um bom professor? Eu falei bastante, mas será que fui compreendido? Naquela parte eu até desenhei, será que ficou claro? Honestamente, eu acreditava que a conversa não tinha sido tão legal, apesar do meu "aluno" ter elogiado e falado que iria aplicar o que eu tinha apresentado, o que me gerou ainda mais uma preocupação: será que vai funcionar quando não estiver debaixo da minha asa? Minha confiança só voltou na chamada de vídeo seguinte, um cliente na Bahia (2000km daqui) repetidamente dizia que a minha lógica havia ressuscitado umas plantas que ele carinhosamente chamava de "defuntas". Tá dando certo.


Mais uns aninhos se passaram, agora eu tinha junto a mim uma equipe de técnicos dentro da minha empresa. Sempre tentei passar todo o meu conhecimento para quem esteve ao meu lado profissionalmente, sem esconder nada e por conta disso essas "aulas" se tornaram mais frequentes. Novas pessoas, com novas dúvidas, novas pesquisas sendo necessárias, novas lógicas foram estudadas, mais linhas e colunas na nossa planilha. "Todo mundo deveria saber mexer nisso" ouvi de um produtor rural que nem se quer sabia usar um computador, e é claro que eu concordei.


Eu precisava passar o conhecimento construído de alguma maneira. Eu já ajudei tanta gente com fertirrigação: morangueiros, tomateiros, viveiristas, hidropônicos, dois jardineiros, produtores de pimentão e até uma lavoura de quiabo que até então eu nunca tinha visto na vida. Isso não pode morrer aqui. Perceberam aonde essa conversa está chegando? Os cursos da Universidade do Morango precisam sair do papel, agora por uma questão de honra.


Voltei ao meu Power Point, organizei as minhas ideias de uma maneira didática e visual, comprei uma piscina de bolinhas (quem fez o curso de nutrição vai entender essa). Convidei minha própria equipe, alguns fornecedores e até um produtor da região para serem as cobaias, passaram um dia todo de treinamento que eles acharam que era pra eles (era pra mim), e no final o feedback foi positivo. Vamos divulgar, alguém vai se interessar.


O ano agora é 2026. Três turmas do curso de nutrição já se passaram. Mais de 30 pessoas já receberam o nosso certificado. Pesei adubo e dosei na caixa de água na frente de cada uma delas, e voltamos na nossa planilha para ver dentro da teoria o que tínhamos acabado de fazer na prática. Estou eu me preparando, novamente, inventei três novos cursos em cima de demandas dos meus seguidores, recebo essa foto no meu whatsapp:



Era hora do almoço e eu estava fazendo o meu nesse momento. Chamou a atenção a perfeição da forma do fruto da foto, quase um coração. Achei que era isso que ele queria me mostrar. Perguntei sobre a variedade se era aquela lá, ele disse que não, era outra. Me fez olhar novamente a foto, só então percebi que o que realmente interessava é o que está desfocado ao fundo. Cinco a seis anos depois o meu primeiro "aluno" ainda usa a planilha que passei algumas horas explicando para ele. A satisfação foi tanta que me fez querer escrever toda essa história para vocês. Acompanhado da imagem os textos foram os seguinte: "Cara, eu uso muito, demais. Você me ajudou um tanto que não tem ideia".


Para quem disse que eu tinha perfil de professor, pelo jeito você estava certo, pois tenho percebido que transmitir o conhecimento tem sido a atividade mais satisfatória dentre as tantas que desempenho no dia-a-dia. Não medirei esforços dentro desse nosso projeto para que episódios como esse se repitam, talvez seja esse o meu propósito.



 
 
 

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Responsável Técnico

Danilo Ribeiro

Engenheiro Agrônomo MSc.
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